A COMOVENTE HISTÓRIA DE UM VAQUEIRO
1.
Vou contar para vocês
A história de um vaqueiro,
De um vaqueiro do sertão
Do Nordeste Brasileiro,
Que foi posto para fora
Da fazenda tão ligeiro.
2.
Foi mandado sem motivo,
Sem causa e sem razão,
Deixando cavalo e gado,
Chapéu, perneira e gibão;
Saiu pelo mundo afora,
Sem rumo e sem direção.
3.
Despediu-se do cavalo,
Do curral e do mourão,
Da filha do fazendeiro,
Da fazenda e do patrão,
Levando apenas consigo
Saudade no coração.
4.
O patrão, arrependido
Do erro que cometeu,
Vendo a fazenda perdida
E o gado que morreu,
Tomou uma decisão
E o caso reverteu.
5.
Mandou logo um mensageiro
Ir chamar o rei do gado,
Dizendo dessa maneira:
“Tudo está desmantelado:
A vaca não dá mais leite
E o boi fugiu do roçado”.
6.
O vaqueiro foi arisco,
Mas atendeu o patrão,
Com o orgulho ferido
E uma dor no coração,
Por causa do desaforo
Que teve na profissão.
7.
Ele pensava consigo:
O que é que o patrão quer,
É armadilha ou volta?
Vou desvendar o mister;
Estou pronto para tudo,
Venha lá o que vier.
8.
Chegando lá na fazenda,
Ouviu o gado berrando,
O patrão estava atento,
Seu cavalo relinchando,
Reconheceu o vaqueiro,
Que estava ali chegando.
9.
Quando o vaqueiro chegou,
Viu um novo ambiente:
Não havia curral nem gado,
Nem janela, nem batente,
Lá na casa da fazenda
Tudo estava diferente.
10.
O gado chegou ligeiro,
Chega levantava o pó;
Cada rês se aproximava,
Num triste lamento só,
Como quem grita em silêncio:
“Por Deus, de nós tenha dó!”
11.
Disse o vaqueiro ao patrão:
“Vim atender seu chamado.”
Respondeu o fazendeiro,
Feliz e emocionado:
“Ainda bem que voltou
Para cuidar do meu gado!”
12.
“Desde que você partiu,
Tudo é tristeza e penar:
Vaca não quer dar mais leite;
Bezerro não quer mamar;
E meu cavalo estimado
Não deixa ninguém montar.”
13.
Disse o vaqueiro: “Patrão,
Eu já tenho outro lar;
Lutei demais nessa vida,
Eu preciso descansar”,
Mas o gado o cercava,
Sem deixá-lo se afastar.
14.
Disse o patrão com firmeza:
“Dou-lhe o que precisar:
Terra, riqueza e gado,
Uma casa pra morar
E um cavalo selado
Para você campear.”
15.
“Reconheço o seu valor;
Fui injusto e muito errado;
Eu fui um patrão ingrato;
Esqueça o tempo passado;
Pelo gado, volte logo,
Que por você tem chamado.”
16.
Nessa hora, algumas reses
Já berravam no terreiro;
Era grande a comoção,
Naquele chão altaneiro,
Com o gado venerando
O seu único vaqueiro.
17.
Disse o vaqueiro chorando:
“Já não mando no meu peito:
Vou cuidar de cada rês,
Vou fazer tudo perfeito,
Deixando o patrão feliz
E o gado satisfeito!”
18.
Aboiava e o gado vinha;
De todo canto surgia
Boi pintado, boi malhado,
Cada qual lhe respondia,
Com respeito e emoção,
Muito amor e alegria.
19.
Aboiando, ele narrava:
“Estou aqui outra vez;
Agora, se Deus quiser,
Não morre nenhuma rês;
Seu querido rei voltou
Para cuidar de vocês!”
20.
Chegou ligeiro um garrote,
Coxo, fraco e atrasado,
Que, no tempo de bezerro
Foi ferido e maltratado;
Veio no fim do rebanho,
Mas também foi abraçado.
21.
Cheirou os pés do vaqueiro
E começou a chorar;
Se esfregava no cavalo,
Como quem quer conversar:
Era uma prova viva
Do amor que sabe cuidar.
22.
O vaqueiro enxugou o rosto
E falou à vacaria;
Já o patrão, vendo a cena,
Sentiu paz e alegria;
Chamou amigos e fez festa
Para celebrar o dia.
23.
Vaqueiro, que é vaqueiro,
Zela o gado como irmão;
Vai ao campo todo dia
Por dever e por paixão;
Quem não gosta de vaqueiro
Não tem Deus no coração.
24.
Fica aqui essa lição
Para patrão e vaqueiro:
Respeito é melhor que ouro,
Prata, marfim e dinheiro;
Quem honra o rei do gado
É um herói brasileiro!
Hosmá Passos.
Piancó, Paraíba, Brasil.
1 de fevereiro de 2026.